19 de jul de 2013

[Crônica] GARCIA MÁRQUEZ – A última anedota de G.B.S.


  
[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


Bem antes de receber o galardão do Prêmio Nobel de Literatura com a sua magistral obra, Cem anos de solidão, de ter publicado outras tantas obras como O amor nos tempos do cólera, Crônica de uma morte anunciada, Funerais de mamãe grande, Ninguém escreve ao coronel, O sequestro, O outono do patriarcaA incrível história de Cândida Erêndira, , e, a mais recente, Memória de minhas putas tristes, entre outras, Gabriel Garcia Marques escreveu, bem antes da fama e do Nobel, artigos para o jornal colombiano El Universal, quando tinha apenas 20 anos; escreveu também para o jornal El Universal, onde exerceu o cargo de redator.

Os seus artigos, escritos no período de 1948 a 1952, foram reunidos nos 2 volumes do livro Textos do Caribe, publicados no Brasil pela Editora Record, com compilação de Jacques Gilard e tradução de Joel Silveira. Do seu segundo volume transcrevo a sua crônica, escrita para homenagear George Bernard Shaw, no dia em que faleceu o célebre escritor inglês, como segue ((In Textos do Caribe/Gabriel Garcia Marques, tradução de Joel Silveira, Rio de Janeiro: Record, 1981. v. 2, p. 31):



 [ESPAÇO DA CRÔNICA]


 A ÚLTIMA ANEDOTA DE G.B.S.
     [ GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ ]


Mr. George Bernard Shaw – sempre tão oportuno! – escolheu para morrer o2 de novembro, que sem dúvida é o dia mais apropriado para se levar a cabo essa incômoda diligência. Morrer num dia 15 de março, por exemplo, equivale a que ninguém a lembrar-se de qualquer um de nós passadas três gerações. Morrer no dia de finados, ao contrário, é completa garantia de perpetuidade na memória dos sobreviventes, inclusive sem necessidade de ter feito as coisas excepcionais que fez Mr. Bernard Shaw antes de dar esse mau passo que o converteu num dos mais gloriosos hóspedes do subsolo. Poucas semanas antes, o mundo havia temido a ocorrência desse acontecimento, mesmo que Mr. Shaw tivesse tomado precauções para que se acreditasse no contrário e que o fatal tropeço que sofrera em seu jardim de Ayot St. Lawrence fosse apenas um motivo para acrescentar um par de muletas a seus múltiplos e merecidos títulos literários.

Depois de haver despachado suas enfermeiras e haver feito umas quantas pilhagens à custa de sua própria bacia fraturada, ainda se deu ao luxo de fazer de sua morte uma surpresa e não, como poderia ter sido há algumas semanas, o resultado lógico de um passo em falso.

Noventa e sei anos de legumes vão para o outro mundo, transformados por elementos que construíram um dos homens mais importantes deste século. Jamais um repolho foi matéria-prima de tanta valia, nem um punhado de rabanetes melhor combustível para manter ativo esse carburante de barba branca e calças bufantes que hoje será conduzido ao cemitério, depois de há 50 anos vir zombando da paciência das senhoras e dos antropólogos.

A morte de Mr. Shaw é algo demasiado sério para que seja tomada em seu sentido literal. Deve-se simplesmente acreditar que ele entrou em férias, depois de haver cumprido uma das jornadas mais extraordinárias na literatura de todos os tempos. O resto, o fato de que o amortalhem e o guardem num ataúde hermético, o emparedem e lhe levem rosas, pode ser apenas uma maneira original de passar as férias, para exemplo de todos os mortos comuns.

Um homem como Mr. Shaw é bem capaz de na próxima semana aparecer no jardim de sua casa, como sempre com seu sorrisinho de velho malicioso, contente de ter mais uma vez brincado com a humanidade. O gênio, teimosamente carregado, pode inclusive servir para isso.




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PEDRO LUSO