12 de set de 2012

SIMONE DE BEAUVOIR - Livros & Personagens

Simone de Beauvoir


                        por  Pedro Luso de Carvalho


SIMONE DE BEAUVOIR, memorialista, filósofa e romancista, nasceu no bairro Montparnasse de Paris, França, a 9 de janeiro de 1908. Foi a terceira mulher a receber o importante Prêmio Gongourt, por seu romance Os mandarins ("Les mandarins"). Tornou-se mais conhecida por sua clássica obra feminista O segundo sexo ("Le Deuxième sexe"), no qual faz uma crítica contundente à cultura patriarcal do Ocidente, que por ocasião de sua edição, 1949, causou grande escândalo entre os leitores da época.

Nascida em uma família conservadora de classe média, sua educação ficou dentro dos estreitos limites desse tipo de mentalidade, como ocorria com a maioria das jovens parisienses, dessa épocca. Não fosse a falência sofrida por seu pai, não teria tido a oportunidade de obter sua permissão para continuar os estudos e preparar-se para o exercício do magistério. Conhenceu Jean-Paul Sartre quando se preparava para a licenciatura na Sorbonne, com quem viveria até a morte do festejado romancista e filósofo, que ocorreu em Paris, a 15 de Abril de 1980. Simone de Beauvoir faleceu também em Paris, a 14 de abril de 1986.

Segue um fragmento do livro Na força da idade, sobre livros e personagens, de Simone de Beauvoir (In BEAUVOIR, Simone. Na força da idade. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961, p. 197-198):


NA FORÇA DA IDADE  [Fragmento]
   (Simone de Beauvoir)


Eu escrevera dois longos romances cujos primeiros capítulos se sustentavam mais ou menos, mas que degeneravam em seguida numa confusão informe. Resolvi então compor histórias bastante curtas e conduzi-las  de princípio a fim com rigor. Proibi a mim mesma entregar-me a fantasias de tom maravilhoso ou romanesco barato; renunciei a arquitetar entrechos em que não acreditava, a pintar meios que não conhecia; procuraria tornar sensível uma verdade que experimentara pessoalmente; ela faria a unidade do livro cujo tema indiquei por um título ironicamente tomado de empréstimo a Maritain: Primauté du spirituel.

Fora marcada suficientemente pelos livros, pelas fitas de guerra, sobre os quais, durante minha adolescência, chorara abundantemente. Todos os Sursun corda, os Debout les morts! todas as frases e todos os gestos sublimes despertavam em mim imagens horríveis; campos de batalha e ossuários, feridos com fisionomias "como bofes", segundo a expressão de Ellen Zena Smith em seu romance, Pas si calme, e que me transtornara. Perto de mim, vira Zaza lançada à loucura e à morte pelo moralismo de seu meio. O que havia de mais sincero em meu romance precedente era meu horror à sociedade burguesa. Nesse ponto, como em muitos outros, achava-me de acordo com o meu tempo; ideologicamente a esquerda era mais crítica do que construtiva; o revolucionário falava a mesma linguagem que o revoltado, não desdenhava atacar a moral, a estética, a filososfia da classe dirigeente. Tudo me animava portanto a levar avante meu projeto. Queria apontar, através de histórias pessoais, algo que as superava: a profusão de crimes, minúsculos ou enormes, cobrindo as mistificações espiritualistas.

Entre as personagens de minhas diversas novelas, estabeleci laços mais ou menos íntimos, mas cada uma dessas histórias formava um todo. Dediquei a primeira a minha amiga Lisa. Descrevia o definhamento de uma jovem timidamente viva, que o misticismo e as intrigas do instituto Sainte-Marie acabrunhavam; ela debatia-se em vão para não ser uma alma entre almas, enquanto seu corpo trabalhava surdamente. Atribui a minha segunda heroina, Renée, a fisionomia, a palidez, a larga fronte da irmã do doutor A. que eu conhecera em Marselha. Sentia que em minha infância houvera uma relação íntima entre o masoquismo  de certos jogos e minha devoção. Soubera também que a mais devota de minhas tias fazia-se fustigar vigorosamente à noite pelo marido. Diverti-me com imaginar, em um adulto, a degradação da religiosidade em canalhice. Ao mesmo tempo, tracei um quadro satírico das Equipes sociales; tentava fazer que se sentissem os equívocos da dedicação. Empreguei nessas duas narrativas um tom falsamente objetivo, de uma ironia velada que imitava a de John dos Passos.



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Um comentário:

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